LATITUDE 70 – Enfrentando o Frio (Parte 2)

Veja esta matéria na íntegra na Edição #3 da REVISTA OVERLANDER ou Parte 1 aqui

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Texto & Fotos: Roy Rudnick e Michelle Weiss    www.mundoporterra.com.br

O PASTOR DE RENA

Outro dia levantamos cedo, reabastecemos e demos carona a um nativo Even chamado Vladimir, que 30 km ao norte nos convidou para um chá em sua barraca no meio da floesta. Ele é um pastor de renas, que além de tirar sustento de sua criação, vive da caça e pesca, em total sinergia com a natureza. Enquanto ainda fechávamos nossos carros para visitar seu acampamento ele catou um bloco de gelo e o levou para derreter e fazer o chá. Ao chegarmos em sua barraca ela já estava aconchegante e aquecida pelo fogão a lenha. Sentamos no chão sobre couros de rena. Algumas de suas roupas, botas, luvas e outros itens também eram de couro de rena, um isolante natural que o protege de temperaturas até -60°C. Tomamos chá e ouvimos suas histórias.

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É fantástico e curioso perceber as diferenças do mundo dele com o nosso. Vladimir possuía um pequeno cercado e por debaixo da neve haviam dois veados congelados. Era o seu freezer natural. Ao lado de sua barraca haviam alguns trenós para renas e tudo feito com muito zelo. Vladimir não pode, neste dia, mostrar-nos suas renas, pois elas estavam longe nas montanhas. As renas vivem soltas, sem qualquer cercado que as prenda. Para encontra-las e mantê-las próximo a ele, Vladimir utiliza técnicas e aprendizado de muitas gerações da etnia Even.

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A visita ao nosso novo amigo foi rápida, pois tínhamos muitos quilômetros pela frente, mas prometemos que tomaríamos um chá com ele na volta do norte, afinal uma viagem por essas terras não seria completa sem o encontro com as renas. Quem sabe tivéssemos essa sorte.

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RIOS CONGELADOS VIRAM ESTRADAS

As estradas de inverno estavam piores do que imaginávamos. A maior parte do trajeto foi por floresta de taiga e tundra com buracos e valetas muito profundas, que impuseram uma velocidade média entre 10 e 20km/h. Se tudo fosse assim, acho que não chegaríamos em Ust-Kuyga antes do final daquele inverno. A primeira e a segunda marcha eram utilizadas com frequência, isso quando não éramos forçados a engatar a reduzida para preservar a embreagem. Nós partíamos sempre lá pelas oito da manhã e eu me lembro que em alguns dias, quando já havia passado o meio dia, momento que parávamos para comer algo, nosso odometro mal atingira 50 km. Isso fazia a gente chorar de aflição.

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Sentíamos o carro retorcendo naqueles buracos. Mas em contrapartida fomos, também, presenteados com rios e lagos congelados, que somaram 874 km. O gelo não fia um espelho, como se imagina uma estrada congelada, pois a força da água e do próprio gelo cria rachaduras, lombas e buracos, além do que a neve que cai sobre o rio se compacta de uma maneira desuniforme. Mas pelo menos a velocidade aumentava para 50 ou 60km/h e era prazeroso dirigir sobre o rio, acompanhando as suas curvas e tendo ao lado os paredões da sua encosta. É como navegar em um barco, mas tendo o volante, pedais de freio, embreagem e acelerador ao seu comando, e a gente não fia mareado. Uma experiência fantástica!

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Assim fomos evoluindo. Nossa principal atividade era dirigir, dirigir e dirigir, fazendo paradas apenas para contemplar a natureza e fotografa-la. A noite o Konstantin vinha para o nosso carro para fugir do frio (entre -35°C e -50°C), jantarmos e jogarmos conversa fora e logo era dia outra vez, fazendo-nos ter que encarar a estrada novamente.

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Aí veio a linha do Círculo Polar Ártico, que felizes da vida escrevemos na neve este marco, já que não havia qualquer sinalização a respeito. Depois Batagay, uma cidade que assusta numa primeira impressão, com construções soviéticas escuras, uniformes e sem manutenção, mas é algo que você se acostuma e passa a apreciar. No fundo ela é acolhedora e calorosa, mas extremamente difícil de entender sua existência naquele “meio do nada”. Para seus moradores saírem de lá de carro só é possível no inverno e pode considerar três dias, no mínimo, para chegarem até a estrada principal. No verão o acesso é de avião ou barco, mas o primeiro é caro e o segundo demorado.

Mas Batagay estava a apenas 67°39’ N. Tínhamos mais 2°21’ em latitude para subir em um percurso muito lento. É irônico, pois podemos dizer que para avançar 60 minutos em latitude, levávamos cerca de dez horas.

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SÉRIOS PROBLEMAS

Ao norte de Batagay entramos no rio Yana, porém boa parte do trajeto dirigimos pela taiga e tundra. Isso porque haviam trechos do rio com água sobre o gelo, algo comum de acontecer mesmo no pico do inverno e há perigo do gelo se partir. Flagramos 6 caminhões, de 6 caminhoneiros infelizes, que caíram nesta armadilha da natureza. Para eles, que trabalham com transporte apenas no inverno, que é a estação onde há estradas, sua temporada havia encerrado, pois o processo de se tirar um caminhão daquela situação leva pelo menos 2 meses. Faltando 40 km para Ust-Kuyga nosso carro perdeu potência, parecendo não abrir o segundo estágio da bomba injetora e o que aprendemos em Oymyakon bastou para darmos o diagnóstico – diesel congelado, entupindo o filto de diesel. Ah não, de novo não!

A apreensão veio imediatamente, mesmo sabendo que precisávamos manter a calma. Então, ainda com o carro em movimento, combinamos o que fazer. Enquanto a Michelle iria para o motor-home ferver água, eu jogaria aditivo no tanque (especial para remover água do diesel) e bombear manualmente a bomba de diesel para alivia-la. É ilusão pensar que trocando o filto de diesel você irá solucionar o problema, pois o bloqueio está no suporte do filto, onde entra e sai o diesel e não no filto em si. Logo que a água ferveu, enchemos a bolsa de água quente e a deixamos sobre o filto por alguns minutos, com o intuito de aquece-lo. Em seguida a Michelle deu a partida, enquanto eu abria alternadamente os bicos injetores para estimular maior vazão e o carro voltou a funcionar. Que alegria! O mérito da Latitude 70 não seria o mesmo se chegássemos lá rebocados por uma Toyota.

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CHEGAMOS

E de repente, lá de longe, um pontinho de cidade apareceu. Nosso GPS acusava 69°59’ N até que, ainda no meio do Rio Yana congelado, ele virou 70°00’ N e nós mal conseguíamos acreditar. Havíamos falado tanto disso em nosso planejamento e naquele momento lá estávamos nós, felizes da vida, em Ust-Kuyga, tendo atingido nossa grande meta – a Latitude 70 russa. Ao contrário das outras duas Latitudes 70, a que já atingimos no Alasca e a que ainda iremos atingir na Noruega, esta foi a mais importante e desafiadora, pois para atingi-la era preciso que fosse no inverno, era preciso que os quase 900 km de rios e lagos estivessem congelados, fazendo-se transitáveis.

E teve troféu? Sim, um pedaço de caixa de papelão onde a Michelle escreveu cuidadosamente nossa latitude máxima na Rússia – 70°00’ 44’’ N. A noite, lá pelas 22h, fomos presenteados com uma linda Aurora Boreal que apareceu por detrás das montanhas de Ust-Kuyga.

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O resumo da conquista: não é a Latitude em si que importa, mas os acontecimentos que nos sujeitamos no caminho até ela. Tudo isso só aconteceu por termos, desde casa, definido objetivos. Teria sido muito mais fácil termos permanecido na estrada principal, mas e as histórias? As vezes precisamos correr certos riscos.

Naquela noite sobre o Rio Yana, quando jantávamos, nos vimos diante de uma pergunta:

– E agora, voltamos? Sim! Mas serão 6 dias de deslocamento mais tranquilos. Agora já sabemos onde estão os buracos. Rsrsrs.

Mas não foi bem assim. Na volta, pelos amortecedores traseiros terem se danificado internamente devido ao frio intenso, em alguma pancada forte eles se abriram até seu limite e quebraram os suportes de ambos. Até fiemos outros suportes em Batagay em uma torno-mecânica, mas um voltou a quebrar próximo a Topolinoe. Além disso a bieleta da barra estabilizadora traseira se rompeu.

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UMA VOLTA DEMORADA MAS DIVERTIDA

Nossa volta demorou 6 dias, assim como a ida, e foi celebrada quando vimos Vladimir acenando-nos em frente a sua barraca com um pano colorido. Ficamos felizes por vê-lo novamente, pois é uma pessoa muito especial para nós e também, sabíamos que nos faltavam apenas 30 km para Topolinoe. Logo que o cumprimentamos ele nos levou para ver suas renas. Pudemos chegar tão perto delas, que comeram sal em nossas mãos. A noite a janta foi em nosso carro e pela manhã, para retribuir nosso gesto, além de nos dar a oportunidade de montar numa rena, Vladimir preparou uma sopa de carne de rena que foi de lamber os beiços.

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Viajamos para Topolinoe e depois até aquela nossa conhecida bifurcação na Estrada dos Ossos, que treze dias atrás havia nos despertado hesitação. E valeu a pena? Ô se valeu. Esta região mais fria do planeta agora não nos assusta mais. Nós a tratamos com respeito e em troca, ela nos proporcionou uma das melhores aventuras de nossas vidas!

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