MUNDO POR TERRA – Cazaquistão!

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239_CazakRussiaSeguindo nosso replanejamento de contornar o Mar Cáspio pelo norte, entramos pela segunda vez no Cazaquistão, mas desta vez no cantinho sudoeste. Para falar a verdade estávamos loucos para conhecer o estado cazaque Manguistau, que é menos explorado por estar muito distante da parte mais desenvolvida do país, mas é um dos lugares mais bonitos. A primeira vista essas terras se parecem desinteressantes – desérticas, áridas, monocolores e sem montanhas ou florestas, uma planície só. Mas o tesouro encontra-se abaixo do nível da terra, nas suas cavernas, cânions, penhascos e erosões. Ali Deus, nos pareceu, fez seu atelier de escultura natural.

Quando entramos no país nós ainda estávamos na companhia de Cyril e Armony, o casal francês que viajou parte do Uzbequistão conosco. Mas pela necessidade deles cumprirem com uma data predeterminada em seus vistos de trânsito russo, tiveram que seguir mais rápido, então, nos separamos. O máximo que puderam esperar foi até a manhã do dia 07/11 para experimentarem o bolo de aniversário do Roy, que por sinal, estava uma delícia. Dali em diante, cada carro foi para um lado… o deles para o sul e o nosso para as margens do lago Tyzbair, que até hoje não sabemos se nele havia água ou era apenas uma miragem. A medida que avançávamos para tentar nos aproximarmos do que parecia água, a argila sob os pneus do Lobo amolecia, aumentando a tensão entre nós, pois se encalhássemos, sabe lá quando conseguiríamos ajuda, pois estávamos completamente no meio do nada, sem qualquer alma viva a dezenas de quilômetros de distância. E encalhar em terreno argiloso o Mar de Aral já havia nos ensinado que não é moleza sair. Por precaução voltamos, mas a investida valeu por termos dirigido ao lado de um paredão branco com lindas esculturas feitas pelas águas da chuva.

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Está aí um indício de que o Manguistau está longe do resto do país – em praticamente todos os lugares estivemos sozinhos. Na pequena montanha Sherkala (307m), que é toda colorida, com erosões que formam cavernas e pequenos cânions, éramos só nós caminhando e isso dava um charme especial a natureza.

Mas claro, tivemos que dirigir bastante entre um lugar e outro, numa volta em sentido anti-horário, cerca de 1.600km. No meio de toda aquela vastidão há um local específico que deve deixar qualquer geólogo louco. São as pedras esféricas do Vale das Bolas, ou Torysh. Trata-se de milhares de pedras arredondadas, de pequenas como um polegar até gigantescas maiores que nosso carro. A noite, enquanto acampávamos entre as pedras, assamos uma saborosa costela de carneiro e os ossos jogamos fora para tratar os chacals. Eles caíram em nossa isca e talvez como forma de agradecimento, nos acordaram durante a noite fazendo serenata com seus uivos agudos e sincronizados. Foi muito legal! Na sequencia dessa viagem nós ouvimos muitas vezes os uivos dos chacals e segundo um homem do Azerbaijão a quem comentamos sobre o assunto, os chacals respondem frequentemente a dois sons: ao dos aviões que os sobrevoam e ao chamado das mesquitas que acontecem cinco vezes por dia. Na Geórgia, por exemplo, quando fizemos uma caminhada pelas montanhas vários chacals começaram a uivar ao mesmo tempo. Olhamos para cima e lá estava um avião cruzando o céu!

No limite oeste do Manguistau, as margens do Mar Cáspio, há mais um fenômeno geológico impressionante. Chama-se “Falling Earth” em inglês que em português traduziríamos “Terra Caindo”. Trata-se de uma parte da encosta que está desmoronando para dentro da terra. Infelizmente nossas fotos não são capazes de demonstrar a imponência daquele buraco, pois não havia nada que pudéssemos usar como referência de tamanho na foto, mas podemos afirmar que era grande, digno de cenário de filme de apocalipse.

Quem visita o Manguistau pode intercalar as belezas naturais com algumas obras interessantes do ser humano. Espalhadas por todo o estado há mesquitas subterrâneas, escavadas como cavernas que datam de até mil anos atrás. A maioria está em funcionamento até hoje e viraram pontos de peregrinação de fiéis de todo o país. Das duas que conhecemos na parte norte do estado, Shakpak Ata e Sultan Epe, acredita-se que a primeira possui poderes de cura, pois ali vivia o curandeiro Shakpak Ata e dizem que não havia no mundo doença que ele não pudesse curar.  Já Sultan Epe era considerado o protetor dos velejadores e o seu mausoléu fica logo ao lado da mesquita-caverna Sultan Epe.

256_CazakRussiaAí veio Aktau, a capital do Manguistau, uma cidade que desenvolveu-se as margens do Mar Cáspio como cidade portuária. Sua importância se dá pela extração de petróleo e gás, recursos que a região tem em grande escala. Para nós foi mais um ponto de abastecimento e sem delongas partimos para a natureza novamente. Logo que deixamos a capital dirigimos por uma depressão na terra chamada Karagiye que tem seu ponto mais baixo a 132 metros abaixo do nível do mar (nós dirigimos até -103m). Como curiosidade, o Mar Cáspio, que não é um mar propriamente dito e sim um lago de águas salgadas, também tem sua linha d’água a 27 metros abaixo da linha dos oceanos.

Para acharmos esses lugares interessantes no Manguistau nós seguíamos pontos previamente registrados em nosso GPS, que foram sugeridos por amigos. Após a depressão de Karagiye, para chegar em um desses pontos, tivemos que sair da estrada principal e rumar ao sul e logo que começamos a descer por uma serra, ainda de longe, entendemos porque nos sugeriram ir para lá. Era um lugar maravilhoso, repleto de montanhas e cânions todos desenhados pela ação das chuvas e dos ventos. Lindo demais. Digno de ser explorado tanto por terra, como por ar. Naquele dia, onde resolvemos acampar, montamos o paramotor para fazermos um voo de reconhecimento e algumas fotos aéreas. Era final de tarde e foi muito difícil decolar, pois não havia vento algum para ajudar a levantar a vela. Na terceira tentativa, depois de uma corrida de dezenas de metros, o paramotor levantou voo e nos levou para apreciar de cima um dos lugares mais incríveis que já estivemos.

270_CazakRussiaNos outros dias dirigimos e caminhamos em diversas partes desses cânions. E para nos deixar ainda mais maravilhados, uma daquelas noites coincidiu com o aparecimento da Super Lua, que, segundo astrólogos, foi a vez que a lua se aproximou mais da terra deste 1948. Além disso, durante o dia em nossas caminhadas, encontramos fósseis marinhos, resquícios petrificados que comprovam que o mar chegou até ali algum dia. Encontramos de conchas perfeitas até fósseis de ouriço do mar, algo que parece um pedaço de um casco de tartaruga e um dente de peixe.

Na parte do sul do Manguistau visitamos mais duas mesquitas subterrâneas, a Chopan Ata e a Beket Ata. Após a visita, sempre éramos convidados para tomar chá e comermos doces, mas em Beket Ata ficamos para a janta quando foi servido Bishbermak, um prato tradicional do Cazaquistão que compreende um macarrão largo, tipo massa de lasanha, com carne de cavalo ou cabra. Sentamo-nos todos no chão, homens separados das mulheres, ao redor de grandes bacias de alumínio com a comida que também foram postas sobre toalhas no chão. Todos comemos com as mãos, sem uso de talheres ou pratos. Como nessa oportunidade a carne usada foi carneiro, a cabeça, que é considerada uma das melhores partes do animal circulou entre os homens para cada um arrancar seu pedaço. No fim da refeição a água onde foi cozida a carne foi servida quente, segundo eles para ajudar na digestão. Tudo estava delicioso, mas não tivemos tempo de fotografar essa ceia, já que estávamos entretidos com a comida.

287_CazakRussiaA caminho de Beyneu, cidade que já cruzamos no início do circuito do Manguistau, começamos a ver caminhões com muita neve sobre eles. Já estava em tempo de esfriar, mas definitivamente não esperávamos uma mudança de temperatura tão drástica. Das 13hs para as 14hs daquele dia a temperatura caiu de +10 para -4°C, não nos dando tempo para tomarmos as precauções para enfrentar o frio. A caixa d’água e a pia congelaram rapidamente, bem como tivemos problema com nosso aquecedor, quando um diesel de má qualidade congelou bloqueando a bomba. A noite fez -6,2, noutro dia -9,2 e alguns dias depois -13,4°C.

No norte do Mar Cáspio, na cidade Atyrau, ainda antes de sairmos do Cazaquistão, cruzamos o Rio Ural para mudar de continente. Parece estranho, mas é isso mesmo – o Rio Ural divide a Ásia da Europa, fazendo do Cazaquistão mais um país transcontinental. Acima da nascente deste rio, a separação está nos Montes Urais da Rússia. Ao sul de Atyrau, a divisa desce pelo Mar Cáspio, segue ao oeste pelas montanhas do Grande Cáucaso até o Mar Negro, de onde segue por água até o Mar Mediterrâneo pelo Estreito de Bósforo, que também divide ao meio a cidade de Istambul, na Turquia.

Já em terras europeias, cruzamos a fronteira para a Rússia e passamos alguns dias em Astrakhan. Lá conhecemos Vitaly, amigo do Konstantin, o russo que dirigiu conosco até a Latitude 70 na Rússia. Nossa grande amizade com Konstantin o motivou a dirigir 3.000km ida e volta pelas estradas nevadas russas só para passar um dia conosco em Astrakhan. Ele é uma pessoa muito especial para nós! Vitaly também foi muito hospitaleiro, nos ajudando com tudo o que foi preciso para que pudéssemos seguir viagem para o Cáucaso.

Sobre MUNDO POR TERRA – Roy & Michelle
Volta ao Mundo 2 – Pretendemos atingir a Latitude 70° Norte em 3 pontos no globo: Prudhoe Bay (Alasca), Nord Kap (Noruega) e Pevek (Rússia).
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