O PERRENGUE – Desafios do Congo (Parte 2)

Veja esta matéria na íntegra na Edição #4 da REVISTA OVERLANDER

Ao sonhar com a África, imagens de leões no capô do carro, fogueiras no mato e pores do sol sobre o Serengeti imediatamente vem à mente. No entanto, há outro lado da África, cheio de desafios e dificuldades. Este viajte experiente — e autor —, que passou quatro anos ziguezagueando o continente com seu Land Rover 1975, sabe muito bem disso.

Parte 1 aqui >>>>

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O PERRENGUE DE SAÚDE

Texto e Imagens: Christopher Many  www.christopher-many.com

Pela primeira vez na minha vida, não estou curtindo tanto as incertezas de viajar quanto eu costumo. A estrada está repleta de veículos militares enferrujados. Sinais vermelhos de crânio e ossos alertam para nunca se perder: minas terrestres poderiam estar em toda parte. Quando uma queda em um buraco inevitável faz com que meu motor saia do lugar, decido cruzar a “linha vermelha” para tentar pegar um pedaço de arame de um tanque russo para que possa improvisar um suporte temporário. Insensato, eu sei, mas fazer o quê?

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Para economizar água, estou tomando apenas metade de uma xícara de café por dia, afetando meu humor drasticamente. Que se dane! Decido encher meu tanque de água no próximo riacho que considero “mais limpo”. Aceitarei bem as consequências que podem vir se puder desfrutar 24 horas de felicidade. Desfruto apenas três. Em um país onde tudo acontece tão devagar, as bactérias regionais são surpreendentemente ágeis. Eu fio doente, com cólicas no estômago e febre.

É impossível dizer o que está acontecendo na minha barriga. A África Central tem uma grande variedade de vírus e doenças oferecidas tanto para os locais como para os viajantes: febre amarela, meningite (mortal algumas horas após os primeiros sintomas aparecerem), raiva, hepatite, febre tifoide, tuberculose, malária, dengue, Aids, ebola, dentre outras. Mais recentemente, até mesmo a peste negra ressurgiu.

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Ao contrário de outros lugares, o desenvolvimento na África muitas vezes ocorre no sentido inverso. Considerando que há 50 anos muitos congoleses viveram até uma idade madura, a juventude de hoje está destinada a morrer antes de seus pais. Em áreas remotas do Congo, os avós contam histórias de como carros, trens e ônibus cruzaram seu país, enquanto a jovem geração ouve com descrença, sem nunca ter visto trens, estradas lacradas ou até mesmo eletricidade. Os recém-nascidos vêm ao mundo muitas vezes em condições piores hoje do que na década de 1960, morrendo de doenças facilmente curadas em hospitais bem equipados.

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As cidades são coleções de cabanas de lama com edifícios de administração de tijolos em seus centros. A vida ocorre nos pedaços de asfalto existentes, pois são os únicos lugares seguros para pisar devido às minas escondidas. Quando os pastores têm apenas uma perna, e seu gado três, é melhor tomar cuidado ao precisar fazer xixi no mato. Em ambos os lados da estrada, vejo animais presos em longos pedaços de madeira — não consigo identifiá-los. Os proprietários balançam suas iguarias na minha frente, tentando chamar minha atenção, enquanto tento desviar deles. Um serval à minha esquerda salta para cima e para baixo sem parar, o macaco à minha direita parece vivo novamente. Esta é a versão de fast-food congolesa para um viajante cansado. Se meu estômago estivesse melhor, arriscaria provar alguma coisa, mas já estou sofrendo o suficiente. Este definitamente não é o momento para experimentos culinários.

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Depois das chuvas, as trilhas se transformam em poças de lama, e eu só consigo percorrer alguns quilômetros por dia. O combustível é outro problema. O último posto de gasolina estava em Angola, onde enchi o meu tanque com 325 litros. Agora só tenho 80, e ninguém pode me dizer onde consigo mais combustível. Mas é inútil se preocupar com questões além do seu controle. Então, depois de um dia difícil, eu paro, pego meu facão, abro uma pequena clareira na selva para estacionar e passar a noite. Uma vez instalado, relaxo na minha cadeira do lado de fora da Matilda. Um pássaro flutua omo uma pipa entre as eminentes paredes emaranhadas da floesta, enquanto borboletas me rodeiam. Logo o sol se põe atrás da selva, e uma lua em ascensão banha meu ambiente em um brilho misterioso. Sem dúvida, a natureza ainda oferece o melhor show na terra! Mas certamente seria muito mais agradável se não tivesse um milhão de mosquitos me atacando!

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O PERRENGUE MECÂNICO

Quase um mês depois, chego a Lubumbashi. A partir daqui há uma nova estrada sul-africana que se estende até a Zâmbia. Não só estou maravilhado, assim como o meu Land Rover. Depois de semanas em estradas horríveis, os pneus estão muito desgastados e assemelham-se aos pneus lisos de um carro de Fórmula 1. Logo estarei dirigindo apenas nas rodas de aço. Minha situação de saúde não melhora: minha febre não diminuiu e meu corpo está reagindo à desnutrição. Ao entrar no Congo, eu pesava 90 kg; ao sair, apenas 77.

A fronteira de Kasumbalesa está à vista: um formigueiro humano onde milhares se contorcem entre os inúmeros caminhões que esperam semanas para desembaraçar sua carga. Como não tenho nada a declarar, consigo permissão para ir à Secretaria de Imigração, onde um oficial pea meu passaporte, suspira, alcança laboriosamente a almofada de tinta e valida minha partida. A barreira desta fronteira é resolvida, e com um sorriso eu atravesso o portão de arame farpado. Consegui!

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O proprietário da primeira pousada em que parei na Zâmbia me convida a ficar, sem custo. É uma senhora britânica idosa, insiste que não posso seguir até que eu tenha recuperado pelo menos 10 kg. Sua generosidade é ainda mais surpreendente considerando minha aparência. Sem banho por um mês, com um veículo “preso” por corda e troncos de árvore, eu ultrapasso os limites do que é socialmente aceitável. Só consigo imaginar que ela cuida de animais de rua e teve pena de mim. Ela também me dá o endereço de Chas Reeves, um agricultor local e entusiasta de Land Rover que ela acha que poderia ter um chassi e pneus em sua propriedade. Sentindo-me apto novamente, parti para investigar.

Minhas esperanças são baixas enquanto eu procuro na pilha da sucata, mas Chas insiste que deve haver um chassi em algum lugar. Encontrei! Um quadro da Série 1961 é banhado pela luz de um sol brilhante como uma relíquia sagrada. Ainda está em bom estado. Cautelosamente pergunto o preço, temendo pelo pior. Um bom chassi pode custar mais de 1.500 dólares.

— Nada! — Chas sorri. — Eu nunca vou usá-lo. Por que você não reconstrói seu carro aqui, na minha oficia?

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Não quero abusar da sua boa vontade, pois quando começar a remover o primeiro parafuso, no processo de strip-tease do carro, estarei preso aqui até a reconstrução completa. Mas Chas é persistente. Por mais tempo que demore, ele e sua família cuidarão de mim.

Trocar um chassi de automóvel soa um trabalho assustador, e é, mas ao mesmo tempo é pura diversão: é como construir a sua primeira casa, do zero. Depois de tudo ter sido desmontado — motor, transmissão, eixos, suspensão, freio, e assim por diante —, a reconstrução pode começar. Sento-me na oficia deixando meus olhos vagarem lentamente sobre as 500 peças estranhas separadas em pilhas organizadas, e sinto despertar a alegria da infância de brincar com meu conjunto de Lego.

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Mas por onde começar? Lembro-me de um livro chamado Momo, no qual uma garota pergunta a seu amigo, o varredor de rua, como ele encontra força todas as manhãs para começar seu dia de trabalho. A estrada que ele deve limpar é interminável e se estende até o horizonte. O gari responde que ele nunca olha tão longe. Em vez disso, ele se concentra em um único passo, em seguida, uma única varredura, e não mais. Começarei pela suspensão.

Essencialmente, essa é a maneira que cada desafio ou perengue é resolvido na vida, um passo de cada vez. A coisa mais importante, entretanto, seja para trocar um chassi ou para viajar pelo mundo, é começar a trabalhar em busca da sua meta, sem adiar.

Uma vez que você começar, tudo se encaixa e as coisas fluem.

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