PERRENGUE – Complicação Policial em Mali

Veja esta matéria na íntegra na Edição #2 da REVISTA OVERLANDER 

Pensando melhor, uma cidade de fronteira remota no meio da África Ocidental provavelmente não foi o melhor lugar para argumentar contra a corrupção.

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Challenging Your Dreams

Grace Downey & Robert Ager

Tendo acabado de completar uma difícil travessia pelo Sahel, da Mauritânia a Mali, estávamos resolvendo as formalidades de imigração. Havíamos feito tudo certinho, mas parecia que esta não era a melhor maneira de fazer as coisas por aqui.

Pelos últimos três dias, sem estrada ou sinalização, havíamos usado o GPS constantemente para encontrar o caminho entre as pequenas aldeias com casas de pau a pique. O problema é que o GPS aponta a direção a seguir em linha reta, desconsiderando obstáculos como rios e montanhas. Frequentemente perdíamos a rota e tínhamos de voltar à aldeia mais próxima e pedir orientação à moda antiga. O lugar é extremamente pobre, sem eletricidade, veículos e água seguramente potável.

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A paisagem é algo entre deserto e savana. Existe um pouco de agricultura de subsistência próximo às aldeias, mas entre elas somente espaços bem abertos, com pouca vegetação e um ou outro tropel de camelos. Sendo a época da seca, as trilhas eram muito arenosas e tínhamos de cruzar vários rios secos bastante rochosos. Para acampar e dormir, simplesmente saíamos da trilha antes do anoitecer. Não existem cercas, andávamos mais ou menos um quilômetro mato adentro para encontrar um lugar protegido para montar acampamento.

Mesmo sem a menor ideia de onde, nem de quando, aparentemente havíamos cruzado a fronteira nesta manhã. Ao alcançar a primeira “cidade”, nos mandaram seguir para a próxima, onde faríamos os trâmites de imigração. Ao chegar a Kayes, fomos primeiro à alfândega para conferirem e carimbarem nossos documentos do carro. A próxima parada seria a polícia para fazer os trâmites pessoais e depois seguiríamos para comprar o seguro obrigatório.

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Ao entrarmos na delegacia de polícia, nos encaminharam para os fundos. Passando ao lado das celas da cadeia, de repente tivemos de pular para o lado quando um prisioneiro maltrapilho se esticou pelas grades tentando nos agarrar. Mais parecia uma cena de calabouço medieval. Em uma sala simples, com uma velha mesa abarrotada de papéis empoeirados, um oficial nos mandousentar. Até então as coisas haviam transcorrido com simpatia. Ele pegou nossos passaportes e os documentos do carro e, verifiando que estavam em ordem, carimbou tudo.

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Depois perguntou se já tínhamos seguro. Respondemos que ainda não, mas que essa seria nossa próxima providência a tomar. Ele nos informou que conhecia um lugar e que nos levaria até lá. De cara, sentimos que havia tramoia no ar, mas concordamos em ir com ele. Esperando o pior, pedimos que nos devolvesse os documentos do carro. Um tanto suspeito, ele respondeu que permaneceria com os documentos, mas a Grace insistiu, dizendo que era a única via que possuíamos e não queria que se danifiasse. Sem abrir de vez o jogo, ele não pôde recusar e, relutante, devolveu os papéis. Isso provou ter sido uma ótima jogada de nossa parte.

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Seguindo pela mesma rua, encontramos o agente de seguros que, depois de remexer uma pasta enorme sobre sua mesa, cotou um valor ridiculamente alto pelo custo do seguro. Sabíamos bem quanto deveria custar, pois havíamos pesquisado tudo antes, em Nouakchott, com outros overlanders. Explicamos que estava muito caro e, depois de fazer de conta que estava surpreso com a nossa colocação, olhou novamente e cotou outro preço, que desta vez era “apenas” o triplo do que deveria ser. As coisas ainda transcorriam educadamente e nós agradecemos, mas dissemos que iríamos procurar outro corretor na cidade. O clima mudou subitamente quando o policial anunciou em tom agressivo:

“Este é o melhor preço e o único lugar para comprar!”

Dissemos que gostaríamos de dar uma olhada mesmo assim. Ele ficou nervoso e gritou ainda mais alto, dizendo que tínhamos de comprar ali! Ele continuou exaltado, afirmando que não tínhamos respeito pela polícia, que no país dele isso era muito grave e que ele não nos deixaria sair da sala sem comprar o seguro. Ele estava nos dando um sermão sobre comportamento e moralidade, quando era óbvio que já tinha todo um esquema montado.

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A Grace tentou explicar novamente, mas ele a interrompeu e foi até a porta para bloquear nossa saída. Ao tentarmos passar, ele tentou segurar a Grace e novamente insistiu que lhe entregasse os documentos do carro. Nesse ponto meu sangue subiu. Passei por ele e lhe disse que não tinha direito algum de tocar na Grace. Uma gritaria se sucedeu e, devido à raiva, não me dei conta do quão perigosa havia se tornado a situação.

Aqui estávamos nós, no meio do nada, fechados em uma salinha com um guarda muito nervoso e armado! Até agora, tínhamos tentado nos comunicar em francês, mas agora já muito exaltado, eu estava gritando de volta para ele em português! E só para piorar as coisas, o guarda era gago e quanto mais ele ficava irritado, pior ficava a situação e mais difícil a comunicação. Teria sido uma cena de comédia ridícula, se não fosse o perigo envolvido!

Antes que as coisas descambassem de vez, chegou um outro corretor que falava inglês. Por fim, o policial se acalmou um pouco e sentamos para começar tudo de novo. Depois de recusarmos mais uma vez, explicamos que prazerosamente iríamos até a delegacia central falar com seu superior. Finalmente, com muito desgosto ele nos deixou sair, insistindo que mesmo não havendo mais onde adquirir o seguro, teríamos de voltar para lhe mostrar. Saímos o mais rápido possível, ainda com muita adrenalina, mas reconfortados com o fato de estarmos com todos os nossos papéis em mãos. Apenas esperávamos que nossa informação estivesse correta e que houvesse mesmo outro agente na cidade. As notícias se espalham rapidamente e, a caminho da praça central, fomos parados duas vezes por policiais pedindo nossos papéis do seguro. Depois de longas discussões, eles finalmente nos liberaram.

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Para nosso grande alívio, encontramos outro corretor de seguros que calmamente nos vendeu uma apólice pelo preço certo. Retornamos à delegacia de polícia e, com grande satisfação, esfregamos o certifiado de seguro na cara do policial. Ele deu uma olhada arrogante, sorriu e saiu caminhando.

Este episódio demorou mais de quatro horas, depois de termos passado três dias puxados viajando pelo meio do nada e bastante tensos. A tática deles é prever que o turista se sentirá desnorteado, cansado e com isso intimidado, comprando assim o seguro deles ali, na hora, sem pensar muito ou avaliar a situação. Isso não só favorece o oficial corrupto, mas também o encoraja a repetir o acontecimento e aumentar ainda mais o preço.

Tristemente, tivemos outros casos parecidos com esse durante nossa estada, e nos demos conta de que esse tipo de comportamento e atitude é comum em Mali.

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