VIAGEM HISTÓRICA – O Brasil Através das Três Américas

Veja esta matéria na íntegra na Edição #3 da REVISTA OVERLANDER

Entrevista com o Beto Braga sobre três pioneiros, que partiram do Brasil em 1928 para dirigir seus Fords “Model T” até os EUA em busca do sonho Pan-americano.

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Como ficou sabendo sobre esse projeto?

Durante alguns anos residi na Bolívia e no ano de 1998 tive o primeiro contato com essa incrível história. O médico Erlan de Oliveira me contou que seu pai havia feito uma viagem do Rio de Janeiro a Nova Yorque em 1928. Com a certeza de que não seria possível tal travessia, contestei com fortes argumentos e fui surpreendido quando no outro dia chegaram às minhas mãos as antigas anotações feitas pelo Comandante Oliveira narrando suas aventuras pelas Américas. Minha surpresa aumentou ainda mais quando vi que não era somente uma aventura, mas na realidade tinha como objetivo traçar a rota onde futuramente seria construída a “Carretera Panamericana”.

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Por que o fascinou tanto?

A paixão pelo Ford “Model T”, somada ao gosto pela aventura e à busca do inusitado proporcionado pelas grandes viagens, estão impressas no meu DNA. Quando encontrei o mecânico Mário Fava vivo e contando a mesma história descrita no livro Diário da Expedição, fiquei ascinado pelo tema e assumi a responsabilidade de resgatar essa incrível página esquecida da História.

Quem eram os aventureiros e o que os uniu?

Leônidas Borges de Oliveira, jovem Tenente do Exército Brasileiro, nascido em Descalvado/SP; Francisco Lopes da Cruz, Capitão Aviador da Marinha, de procedência portuguesa e residente em Florianópolis/SC e o mecânico Mário Fava, nascido em Bariri/SP. O capricho do destino juntou os três aventureiros como protagonistas de suas próprias existências, unindo-os como um único personagem para a realização de seus sonhos individuais.

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Eles tinham um objetivo definido ates de partirem?

O Comandante Oliveira aceita o desafio de povar ser possível ir do Rio de Janeiro a Nova Yorque com um automóvel, sonho da União Panamericana (atual OEA – Organização dos Estados Americanos). As dificuldades efrentadas logo nos primeiros quilômetros da viagem, fazem com que convide o Lopes da Cruz, que havia conhecido na ocasião em que serviu o Exército em Santa Catarina e sabia de seus conhecimentos em navegação e engenharia. Mário Fava sonhava em ir aos EUA para conhecer Thomas Edison e aprender eletricidade.

Quanto tempo acreditavam que duraria o projeto?

Mesmo depois de programar e planejar uma travessia dessa envergadura, dificilmente é possíel prever o tempo para realizá-la. Na época não existiam meios de consultas, também porque não existia tampouco a estrada. Com certeza, eles sabiam que era longe, mas não imaginavam demorar dez anos.

Por que escolheram os Ford “Model T”?

Na realidade não escolheram os veículos. O Ford “Model T” era o automóvel em maior número existente na época e por consequência foi também o mais fácil para ser ganho. A resistência e a simplicidade mecânica, somadas à criatividade do mecânico Mário Fava, garantiram o funcionamento dos automóveis e o sucesso da expedição.

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Que tipo de apoio ou patrocínio eles tiveram?

O Jornal O Globo ofereceu o primeiro automóvel Ford “Model T”, um “Touring” fabricado em 1918 e que havia distribuído o jornal A Noite por dez anos no Rio de Janeiro. O segundo automóvel Ford “Model T”, desta vez uma camionete fabricada em 1925, foi ofertado pelo Jornal O Comércio de SP. O outro pequeno patrocínio foi um relógio cronógrafo da marca Vulcan. Os mais importantes apoios recebidos foram as cartas emitidas pelo ministro das Relações Exteriores Octávio Mangabeira e pelo embaixador dos Estados Unidos Mr. Edwin Morgan, recomendando a expedição às autoridades diplomáticas dos países envolvidos na travessia.

Qual roteiro escolheram e por quê?

A única opção seria caminhar ao oeste até alcançarem a Cordilheira dos Andes, pois ao norte teriam que enfrentar a Amazônia e sabiam ser impossível. Não podiam prever o tempo que gastariam para chegar ao Pantanal — chegaram em plena cheia e foram obrigados a seguir ao sul para desviar das enchentes. Na Argentina subiram pela primeira vez a Cordilheira dos Andes e seguiram pelo altiplano boliviano, utilizando as trilhas dos antigos moradores Aymaras e Quéchuas. Ao alcançarem a região do Apurimac em terras peruanas, convenceram-se ser intransponível tamanha escabrosidade e rumaram novamente a oeste até chegarem ao litoral do Oceano Pacífio. A estrada construída pelos colonizadores espanhóis ligando a capital do Vice-Reinado do Peru até o porto de Cartagena das Índias, conduziu os expedicionários ao extremo norte da América do Sul.

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O maior problema enfrentado foi sem dúvida a travessia do Rio Atrato, onde até nossos dias não foi possível construir a rodovia. Tiveram que desmontar os carros, arrastar os chassis e com a ajuda de um batalhão de homens, carregaram as partes e peças até a fronteira com o Panamá. Na América Central, seguiram ao norte, aproveitando caminhos carroçáveis e as poucas estradas existentes — foi a solução para alcançarem o México. Boas estradas, algumas em construção e outras já pavimentadas, levaram a expedição aos Estados Unidos. Os dois automóveis totalmente reformados adentraram o último país previsto pelos expedicionários. Em maravilhosas estradas pavimentadas, cruzaram todo o país do sul ao norte até a capital federal americana.

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Como eram as estradas, se é que existiam?

Com exceção dos Estados Unidos e norte do México, os outros 13 países cruzados pela expedição não possuíam estradas pavimentadas. Caminhos abertos pelos colonizadores espanhóis, trilhas indígenas e estradas existentes foram anexados ao traçado da futura rodovia. Através de dinamite, pás e picaretas, as mãos de verdadeiros batalhões humanos, formado por contingentes dos exércitos locais e cidadãos recrutados, interligaram os países e definiam o projeto da “Carretera Panamericana”.

Como era a vida na estrada?

Improviso e incertezas marcaram definitiamente a grande viagem. Das privações oferecidas pela rigidez da natureza, enfrentando o rigor do inverno com temperaturas abaixo de zero ao calor intenso do sol equatoriano, da escassez de alimentos nos desertos, o ar rarefeito nas altas altitudes até as águas contaminadas dos rios. Enfrentaram ainda os piores inimigos da viagem, os minúsculos habitantes das matas: milhões de mosquitos, pernilongos, zancudos e arenilhas. Tudo isso era entremeado com a segurança dos quartéis, o luxo dos hotéis e o conforto das embaixadas que recebiam os expedicionários ao chegarem nas cidades.

Quais foram os maiores problemas que enfrentaram?

Os expedicionários tiveram constantes ameaças de enfermidades, desertos, selvas, fantásticos e caudalosos rios e, muitas vezes, foram perseguidos por feras e índios selvagens. Enfrentaram o desconhecido na encruzilhada da grande natureza, sulcaram pântanos, desafiaam a Amazônia e por duas vezes humilharam a Cordilheira dos Andes. As adversidades naturais e o desapego à própria vida somavam-se aos pequenos problemas, como a falta de combustível, pneus e peças de reposição. Por muitas vezes, a gordura de porcos selvagens lubrifiou os motores e o álcool produzido com milho pelos indígenas fez funcionar os valentes Ford “Model T”.

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Como foram recebidos nos vários países?

A construção de uma rodovia que interligasse todos os países era o sonho do Pan–americanismo iniciado com a criação da União Pan-americana e compartilhado por todos os povos das Três Américas. A chegada da expedição em cada cidade trazia na bagagem a esperança real de concretização desse sonho. Ao atravessar o continente americano os expedicionários foram recebidos pela população, governantes e imprensa, que os apoiavam e aplaudiam, considerando-os como os novos heróis da América e os paladinos do desenvolvimento e progresso.

Qual foi a reação deles quando chegaram aos EUA?

Munidos do projeto completo e do plano mirabolante de levantar os recursos para conclusão da futura “Carretera Panamericana”, os expedicionários chegaram aos Estados Unidos. Acreditavam que o capital de alta soma era insignifiante em relação à grandiosidade da obra e do poderio econômico norte-americano. Grandes indústrias, cidades imensas e fantásticas rodovias comprovavam o pleno desenvolvimento e o apoio político garantiria a realização da construção da rodovia.

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Qual foi o legado e influênia sobre a eventual construção da Rodovia Pan-americana?

Indiscutivelmente e comprovado pelos inúmeros documentos, os mapas entregues em 1938 pela expedição ao presidente Franklin D. Roosevelt serviram para impulsionar e incentivar o término da construção da “Carretera Panamericana”. A Segunda Guerra Mundial estava em curso na Ásia e Europa e a qualquer momento os Estados Unidos seriam obrigados a participar. A interligação rodoviária do Canal do Panamá com a malha viária americana era imprescindível para garantir a defesa da América.

Qual seria a mensagem deles para os futuros overlanders?

“As pessoas que estejam possuídas da febre de viajar para acalmar a inquietação de seus espíritos aventureiros, acumular em seu cérebro as maravilhas da natureza e os conhecimentos que brindam cada lugar da Terra se sentirão satisfeitas conhecendo o mundo.” (Diário do Comandante Oliveira)

INTEGRANTES DO GRUPO

Leônidas Borges de Oliveira (Comandante)Francisco Lopes da Cruz (Observador) e Mário Fava (Mecânico)

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