VIAJANDO EM FAMÍLIA – Na Estrada com Filhos (Parte 1)

Veja esta matéria na íntegra na Edição #2 da REVISTA OVERLANDER ou Parte 2 aqui ou Parte 3 aqui 

Três famílias, distintas, compartilham um pouco de suas experiências. Uma acaba de partir, outra está no meio de sua jornada e a terceira já quase terminando uma grande aventura.

Esta é a primeira  . . .

Parada para almoçar no meio do deserto a caminho de San Pedro de Atacama, Chile

UM ESTILO DE VIDA – O Nosso Quintal

Marcos Gadaian & Ana Cristina Torres

Abro a janela, cabelos ao vento, sensação de liberdade, aumento o som e nossa música preferida enche nossos corações. Cantamos juntos, eu, Cris e Caetano, que com apenas um ano e meio já sente toda esta energia positiva do alto de sua cadeirinha, estrategicamente posicionada ao centro da caminhonete para que possa ter uma visão panorâmica de todas as maravilhas que passam ao nosso redor.

Parque Nacional Los Glaciares, Argentina

Estamos seguindo para o sul pela ruta RP1 na Patagônia argentina. Uma estrada de rípio, beirando o Atlântico. As dunas começam a invadir a pista. Ligo a tração 4×4. Cada vez estamos mais longe de São Paulo, o mar selvagem, a imensidão, a natureza bruta, o isolamento. Nas últimas três horas não cruzamos com ninguém. O sol começa a se pôr. Uma reta, muita areia, acelero, uma curva, a Cris me avisa:

“Onde está a estrada?”

“Acho que para a esquerda.”

“Não! Você passou, está para direita.”

“Oi? Opa, ai, ai.”

Já não há mais caminho marcado, tudo é areia, vento e silêncio. Engato a reduzida. Para a frente, para trás, para a frente, para trás. Vamos afundando cada vez mais. Desço. Chicotadas de areia na cara, nos olhos, nos ouvidos, na boca. Com uma panela cavo um caminho na frente das rodas, molho a areia para que fique mais firme, coloco o tapete do carro embaixo das rodas. Uma tentativa, outra e já não consigo sair. O diferencial está afundado na areia. Cris me olha,

“E agora?”

Tranquila, não há o que fazer, temos água, temos comida, temos teto. Será uma noite interessante. Um céu absurdamente cheio de estrelas nos iluminou. Um silêncio ensurdecedor. Éramos nós e o mundo. Cris e Caetano foram dormir.

Do meio do nada surgiu um senhor e seu cavalo que nos ajudou a desatolar nossa casa, RP1, Argentina

Logo que o sol apareceu eu fui para fora tentar desatolar nosso carro,  nossa casa.

Liguei o motor e enquanto o esperava esquentar avistei alguém vindo a cavalo lá longe. A imagem de um homem se misturava na areia que outra vez o vento fazia subir. Ele se aproximou.

“Mira, yo tengo unas planchas de madera que lo puede ayudar.”

Tiramos as pranchas de madeira que estavam amarradas no cavalo e assim, como se fosse tudo muito fácil, rapidamente conseguimos sair. Um abraço, uma foto, Caetano sobre o cavalo e logo seguimos nosso caminho. Ofereci, mas o senhor não quis aceitar nenhuma contribuição. Disse que estava muito feliz por poder nos ajudar.

Comprando pão em Praia de Lobitos, Peru.

Essas pessoas é que gosto de encontrar pelo caminho. Temos encontrado muita gente boa. Às vezes fiamos preocupados, nem todos os lugares são seguros, mas outro dia uma senhora chilena me disse:

“É verdade que há muita gente ruim, mas com certeza existe muito mais gente boa do que má”.

Somos afortunados, estamos felizes, mas isto não é somente sorte, é necessário buscar, seguir o caminho que acreditamos trazer felicidade. Essa coisa de largar tudo e sair andando não foi de uma hora para outra, pelo menos para nós.

Eu sempre acampei desde adolescente. Brincávamos de explorar cavernas, entrar em rios, andar de bicicleta sobre lagos semissecos, cheios de lama. Com 18 anos fui morar em São Paulo e sempre que possível eu saía com minha mochila para “o meio do mato”. Voltava revigorado.

Um dia, trabalhando em uma produtora de cinema, conheci uma menina loirinha que me chamou a atenção. Logo começamos a sair. Fomos seguindo nossas vidas, fomos morar na Europa, fiemos muito mochilão, muitas montanhas, praias, cavernas, fotografis, muitos mergulhos, vídeos, animais… choramos, sorrimos.

Em 2010 resolvemos parar tudo por um ano e dar uma volta ao mundo. Já havíamos nos programado, trabalhado muito e juntado dinheiro para isso. Nosso orçamento era de US$ 35,00 diários para cada um, incluindo tudo, transporte, comida, alojamento etc. Compramos um bilhete “Round the World” da Star Alliance e saímos. O bilhete dá direito a 16 voos, saindo e retornando ao mesmo lugar sempre num sentido, horário ou anti-horário, por 365 dias. Fizemos em 364!

Felizes por visitar Machu Pichu, Machu Pichu, Peru.

Quando retornamos nada havia mudado, as pessoas em São Paulo estavam tão aceleradas que nem perceberam que um ano havia passado. Nós estávamos cheios de experiências, tantas que nem cabiam em nós mesmos. Precisávamos contar, mas ninguém tinha tempo para escutar. Decidimos que iríamos trabalhar para um novo projeto. E o projeto veio, na forma mais linda e enriquecedora que pode ser.  Nasceu Caetano.

Logo meus amigos disseram:

“Ah, agora tudo muda né? Quero ver viagens malucas, Paquistão, Índia, Nepal com criança, não dá, né?”

Ficamos quietos. Caetano foi crescendo e aos 4 meses experimentou seu primeiro acampamento no Parque Estadual de Ibitipoca. Depois vieram outros, e outros até que decidimos novamente sair. A princípio faríamos América do Sul, é fácil e não é muito longe. Meu cunhado, que é também meu grande amigo foi viver em Ottawa, no Canadá e me disse:

“Vocês têm que ir me visitar, hein?”

Respondi:“Sim, mas vamos de carro.”

Procurando peixes no Lago Roca, Parque Nacional Los Glaciares, Argentina

O que começou como uma brincadeira foi virando realidade. Então decidimos fazer toda a América, ir até Ushuaia no extremo sul, seguir rumo ao norte até o Alasca e cruzar o Canadá até Ottawa. A primeira ideia era ir de mochila, comprei uma que tinha uma cadeirinha para bebês na parte superior. Experimentamos algumas vezes, mas logo me pareceu muito pesada, uma vez que o bebê foi ganhando peso e personalidade, já não queria fiar sentado por muito tempo. Então pensamos num jipe pequeno com uma barraca no teto. Procuramos muitas opções e, já quase certos da escolha, a Cris  me disse:

“A gente vai ao fim do mundo, depois Alasca, quando estiver nevando a gente vai ter que descer para abrir o carro e fazer comida? Melhor seria um motorhome”.

Eu sempre gostei de 4×4, estrada de terra, off-oad. Motorhome do tipo que eu conhecia não poderia nos levar por caminhos mais selvagens. Foi aí que conheci o que nos EUA se chama de Truck Camper. Uma casa montada sobre uma caminhonete. Por sorte encontrei um brasileiro que tinha uma e queria vender no Chile ou na Argentina. Acabamos fechando negócio e ele nos trouxe até São Paulo, mas tínhamos somente três meses para sair do país.

Perto de El Calafate, Argentina

Fizemos toda a papelada. Arrumamos a casinha do nosso jeito e em 21 de outubro de 2014 partimos. Pensamos em fiar um ano na estrada. Em breve faremos um ano e ainda estamos no Peru. Aprendemos muito nestes meses. Aprendemos que não somos donos do nosso tempo, que temos que ser flxíveis, que temos que aceitar os desafios que a atureza nos impõe, que temos que aceitar mais em vez de questionar.

Assim como no início deste texto apresentamos um imprevisto, tivemos muitos outros, mas o melhor foi aprender a lidar, com bom humor, com essas situações. Quando você sai de férias por 15 dias, provavelmente nada vai dar errado. Você já se planejou, há alguma agência para lhe auxiliar, está tudo programado, mas quando você sai para a estrada por um longo tempo, muita coisa foge do planejado.

Dormindo sob as estrelas em Camping El Relincho, El Chalten, Patagônia Argentina

Estamos muito felizes. Aprendemos a equilibrar nossas economias. Vivemos com a renda do aluguel de nosso apartamento de São Paulo. Se estivéssemos em São Paulo, este dinheiro não duraria mais do que uma semana, mas aqui, no meio da natureza, vivendo em uma casinha de 10m2, nos sobra para o mês e às vezes até economizamos. Outro dia deixamos nossa casa em Lima, Peru, e fomos ao Brasil de avião ver familiares e amigos. Ao retornar sentimos um carinho especial pela nossa casinha. Sentimos um conforto de lar. Percebemos que já não estamos fazendo uma viagem.

“Isto é a nossa vida. Esta é a nossa casa. Uma casa com rodas.”

Podemos parar onde quer que seja, quando quisermos e pegar um avião para o Brasil. Já não é uma viagem que tem uma data para terminar. É uma vida normal, um dia a dia comum, mas que vai se deslocando de lugar, lentamente, ao sabor dos nossos sentimentos. Não sabemos onde isto vai acabar. Já não faz sentido chegar ao Canadá, vender nossa casa e ir para um hotel?!

Estamos aproveitando o momento. Enquanto pudermos nos sustentar nesta vida e nosso filho estier feliz, seguiremos.

Feliz por estar rodeado de milhares de pinguins de sobrancelha amarela, isla de los pe
Pinguinos, Patagônia Argentina.

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2 thoughts on “VIAJANDO EM FAMÍLIA – Na Estrada com Filhos (Parte 1)

  1. Francisco

    Boa tarde amigos! ótima informação a sua, eu gostaria de saber se com salário de aposentadoria de uns 3.000,00 reais daria p/ eu viver como vocês vivem? ja tenho a caminhonete, só falta transformar num truck camper. gostaria de terminar o fim da vida assim livre de tudo e de todos.

    Reply
    1. marcos

      Olá Francisco! Depende de alguns fatores, somente você ou mais pessoas? Pelo Brasil ou outros países? Nós anotamos tudo que gastamos, temos um controle total de despesas e receita. Nós somos 4 pessoas. Quando saímos do Brasil o dólar estava R$2,00, nosso gasto estava por volta de 1.500 US$ mensais, o que era R$3.000,00. Agora o dólar está a R$4,00. Tivemos que cortar gastos, não dormimos mais em camping, dormimos em qualquer lugar, no mato, nas praças, em estacionamentos, em postos de gasolina. Só compramos o que é local e está com bom preço, Tentamos não rodar muitos kms por mês, para manter as contas dentro do nosso “budget” Existem países que conseguimos gastar muito pouco, outros são bem mais caros. A maioria dos nossos amigos viajantes, que viajam sós, dormem e comem sempre no camper, gastam algo como US$800,00. Também não é muito difícil ganhar algum dinheiro pela estrada. Encontramos de tudo, viajantes que dão aula de tênis em resorts, músico que toca nas praças, músico que toca em bares, músico-luthier que concerta instrumentos de orquestra, outros que fazem artesanato, pintam azulejos, vendem brincos e pulseiras, fazem malabares, contam histórias, vendem caipirinha na praia, e por aí vai. Quando precisamos de “cash” nós vendemos brigadeiro, também já vendemos fotografias, trocamos serviços de fotografia por estadia em camping, etc.
      Eu lhe recomendaria experimentar pela Argentina, que agora está barata, pelo Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia.
      Tem muita gente rodando por aí e logo você vai descobrir como fazer para ter um gasto baixo e seguir rodando sem parar.
      Se você é aposentado, como me disse, não deve ter uma obrigação de tempo para retornar, sendo assim, tente fazer com calma, não queira ver tudo de uma vez, fazer muitos quilômetros por mês.
      Creio que irá curtir muito.
      Abraços

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